quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Problemas Causados pela Super Calagem


A neutralização da acidez do solo tem permitido eliminar o alumínio (Al³+) tóxico e adicionar cálcio (Ca²+) e magnésio (Mg²+). Com isso, o solo é preparado para receber os fertilizantes que vão adicionar os nutrientes mais exigidos pelas plantas. Com a calagem, o pH aumenta e, nas condições de 6,0 a 6,5, as disponibilidade dos nutrientes afloram. Quanto menos ácido um solo mais disponível, para absorção pelas plantas, torna-se os nutrientes. Resultados de pesquisas, de lavouras, onde foi aplicada a calagem, demonstram aumentos de produtividade por diversas culturas. Isso entusiasmou os agricultores a aplicar mais calcário na lavoura, ou aplicá-lo em todas as safras, ou todos os anos de exploração da terra. Surge a dúvida: essa
aplicação maciça de calcário, a chamada "super calagem", é um benefício ou será, futuramente, um grande problema? Acima de pH 7 já começa a aparecer indisponibilidade de micronutrientes, como o zinco.

Com a calagem, além de eliminar o Al³+ tóxico, estamos adicionando Ca²+ e Mg²+ que são atraídos fortemente pelos coloides do solo. Além da calagem, a aplicação de potássio (K+) é feita no solo. O excesso de Ca e Mg dificulta a absorção do K. A calagem excessiva, sem incorporação, faz com que a absorção de K seja dificultada, principalmente, quando a planta ainda não tem um sistema radicular bem desenvolvido.
          
SILVA e ali. fizeram uma pesquisa sobre o estudo mineral de uma super calagem no milho e chegaram à conclusão que a calagem excessiva, mesmo não sendo recomendada, é menos prejudicial às plantas do que não fazê-la. Concluíram, também, que um dos problemas da super calagem foi a observação de uma interação entre o Ca, Mg e K, pois excesso dos dois primeiros resulta na deficiência do último.
LEIA:  No solo, nem K demais nem K de menos
           Interação entre os nutrientes das plantas

A recomendação da quantidade de calcário deve obedecer à uma análise do solo. Uma nova análise deve ser feita dois à três anos após a aplicação do calcário. O objetivo é evitar aplicações desnecessárias que levariam à super calagem. A super calagem seria tão prejudicial quanto à acidez elevado e seria de difícil correção.  Ela provocaria a mineralização em excesso da matéria orgânica, diminuindo a sua quantidade no solo.
PADUA et ali, estudando a nutrição e crescimento do algodoeiro em latossolo sob diferentes coberturas vegetais e manejo da calagem, citam que a correção superficial ou a incorporação à 10 cm de profundidade causaram uma super calagem na camada de 0-5 cm.

A FEPAGRO - Secretaria de Agricultura, Pecuária e Agronegócios do RS cita alguns casos em que produtores reaplicam o calcário após três anos, mesmo com os benefícios ainda presentes da calagem realizada anteriormente, favorecendo a super calagem nos primeiros centímetros. Não houve a neutralização da acidez da camada de solo abaixo de 10 cm. Isso limita o crescimento e desenvolvimento do sistema radicular, em área e profundidade, apenas para camada 0-10 cm.

Idêntica posição tem a EMATER de Minas Gerais. Diz, ela, que a recomendação de calagem é para incorporação do calcário na profundidade de 20 cm de solo. Mas a calagem superficial incorpora calcário apenas na camada 0-10 cm. Há uma supercalagem e uma elevação demasiada do pH do solo. Isso seria resolvido com aplicação de ácidos e matéria orgânica, que se tornam práticas trabalhosas e onerosas.

VERONESE (2013) pesquisador da Fundação MT, no Programa de Monitoramento da Adubação (PMA) cita que altas doses de calcário ou a sua má incorporação no solo têm proporcionado o aparecimento, nas plantas, de deficiência de manganês (Mn). Esse problema é agravado no sistema de semeadura direta, pois usa-se a calagem superficial, com probabilidades de super calagem nos primeiros centímetros da camada de solo.

Segundo SANDIM (2012), solos com pH elevado e com muito Ca²+ trocável, natural ou advindo de uma super calagem, são favoráveis à retrogradação do fósforo dos fosfatos adicionados ao solo.
Por esse motivo não deve ser aplicado fosfatos solúveis junto com o calcário. Deve haver um intervalo de 30 dias, no mínimo, entre a aplicação do calcário e do fosfato. Mas nunca juntos.

De acordo com LOPES (1994), as deficiências de Mn são provocadas pelo excesso de calcário e/ou a sua incorporação inadequada. Evitar a super calagem, fazendo a incorporação mais profunda com aplicação de Mn, pode contornar o problema. 

Por sua vez, CAIRES (2013) cita que para não haver super calagem, a aplicação do calcário, em sistema de plantio direto, deve ser recomendada somente para solos com pH em CaCl2 abaixo de 5,6 ou saturação por bases abaixo de 65%, na camada de 0-5 cm do solo.
LEIA:  Leitura do pH do solo em água e cloreto de cálcio

Já Goedert (2011), pesquisador da Embrapa, alerta que a super calagem e a monocultura, sem buscar a conservação, provocam um desgaste do solo, traduzindo-se em perdas ambientais e econômicas, pois a recuperação é cara.

REFERÊNCIAS

CAIRES, E. F. Correção da acidez do solo em sistema plantio direto. IPNI. Informações Agronômicas N.141. Mar. 2013.

FEPAGRO. Programa Estadual de Correção dos Solos. Perguntas e respostas sobre calagem. Secretaria da Agricultura, Pecuária e Agronegócio do RS.(Nota Técnica nº 07/2012)
Disponível em: <http://www.agricultura.rs.gov.br/upload/1348691377_NOTA%20T%C3%89CNICA%20N%C2%BA%2007-2012.pdf> Acesso em: 25 Set. 2013.

LOPES, A.S. Solos sob cerrados: manejo da fertilidade para produção agropecuária. ANDA. 2 ed. 62p. Boletim Técnico Nº 5. São Paulo. 1994.

PADUA, T. R. P de.; SILVA, C. A.; DIAS, B de. O. Nutrição e crescimento do algodoeiro em latossolo sob diferentes coberturas vegetais e manejo de calagem. Ciênc. agrotec. Vol.32 N.5 p. 1481-1490. 2008. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-70542008000500019&script=sci_abstract&tlng=pt> Acesso em: 26 Set. 2013.

SANDIM, A. S. Disponibilidade de fósforo em função da aplicação de calcário e silicatos em solos oxidicos. Dissertação (Mestrado). Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências Agronômicas. 99 fl. Botucatu, SP. 2012.

SILVA, P. A.; RIGATO, L. I.; JALES, L de. L.; POLESSA, M. F.; SATHER, M.; BERGER NETO, R.; PASSOS, J. L.; SOUZA, C. M de.; SANTOS, J. N. B dos.; AMARAL, J. A. T do.  Estudo Mineral de uma super calagem no milho.  CCA-UFES/Fitotecnia. Alto universitário. Alegre, ES. Disponível em: <http://biblioteca.univap.br/dados/INIC/cd/inic/IC5%20anais/IC5-13.PDF> Acesso em; 25 Set. 2013.

VERONESE, M. A adubação fosfatada no sulco de plantio ameniza a intensidade dos sintomas de deficiência de manganês. 2013. Disponível em:<http://www.cisoja.com.br/index.php?p=artigo&idA=280> Acesso em: 26 Set. 2013

15 comentários:

  1. Professor parabens pelos posts sempre de qualidade.Gostaria de saber o que deve ser feito se é que é possivel acontecer isso,quando nos deparamos com solos muito alcalinos?.No caso de solos acidos a calagem e/ou gessagem seria o correto.O no caso de encontrarmos solos com muita alcalinidade?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. No caso de solos ácidos somente a calagem neutraliza a acides. O gesso agrícola não é corretivo da acidez.
      Nos solos alcalinos o uso de fertilizantes que acidificam o solo, como os nitrogenados, supersimples, e utilização de pó de enxofre.

      Excluir
  2. Professor, o senhor citou a indisponibilidade de micronutrientes devido a super calagem. Eu gostaria de saber qual a melhor forma de aplicar os micronutrientes, ou seja, se é via foliar ou via fertilizante? eu vejo vendedores falando que seus fertilizantes tem micronutrientes, e em cima disso tirando vantagem!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Existem fórmulas de fertilizantes que possuem micronutrientes adicionados à mistura. Deve-se olhar a sacaria do produto e ver as garantias que o fabricante fornece. Tanto por % de N, de P2O5 de K2O de Zn de B etc. Se não estiver especificado a garantia de um produto é que ele não existe.
      Leia os artigos acessando os links:
      http://agronomiacomgismonti.blogspot.com/2009/06/importancia-dos-micronutrientes.html
      http://agronomiacomgismonti.blogspot.com/2011/06/importancia-dos-micronutrientes-na.html
      http://agronomiacomgismonti.blogspot.com/2011/06/reposicao-de-micronutrientes-exportados.html

      Excluir
  3. Caro prof. Gastão,
    Quero fazer a correção do solo de um pomar que é irrigado por gotejamento, mangueiras em todo o terreno. O problema está na incorporação do calcário, pois seria impraticável a movimentação de máquinas dentro do pomar. Posso fazer a calagem abrindo um pequeno sulco em metade do perímetro da copa da planta e fazer a incorporação de calcário somente na terra retirada deste sulco? Assim, a adubação seria também nesta metade do perímetro da copa.
    Grato pela atenção.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A calagem como a adubação deve ser feita em toda a projeção da copa da árvore.

      Excluir
  4. Prof, estou com uma análise de solo com o pH 5,4, porém o solo não irá necessitar de calcário, como faço pra elevar o pH sendo que não vou realizar a calagem ? Desde já agradeço sua atenção.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É mesmo pH 5,4? pH em água ou em cloreto de cálcio?
      Se for 5,4 seu solo é ácido, requer calagem, pois tem alumínio trocável.

      Excluir
  5. Caro Prof. Gastão, então, no caso de correção do solo de um pomar qual a profundidade máxima de incorporação do calcário?
    Um abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vela o artigo a seguir

      http://agronomiacomgismonti.blogspot.com.br/2013/01/manejo-da-calagem-e-adubacao-num-pomar.html

      Excluir
  6. Professo boa tarde! Trabalho no desenvolvimento de um produto de correção de solo o qual apresenta ótimos resultados de correção de perfil. O mesmo pode ser aplicado via fertirrigação, gotejamento, pivôs central. Gostaria de falar mais sobre este produto em seu blog, e apresentar-lhe as propriedades do mesmo. Os teores de cálcio e magnésio são extremamente altos. Meu e-mail de contato é: lucassput@hotmail.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Use a nossa página no Facebook para falar do seu produto

      Excluir
  7. Professor,
    Gostaria de contribuir com dois aspectos referente à supercalagem e saber de sua parte se o senhor concorda
    1- A supercalagem pode causar: Dispersão de argilas por causa do afastamento demasiado do pH do solo do seu PCZ. Exemplo: áreas de algodão convencional que recebem altas doses de calcário anualmente no Oeste da Bahia. Essa dispersão nessas áreas junto com outros fatores tem levado à um selamento subsuperficial (onde tem menos MO) e grandes problemas de infiltração de água
    2- Com relação à calagem em SPD as melhores informações estão nas áreas agrícolas do sul do Brasil, pois, é mais comum ter-se áreas com balanço positivo de Carbono e as áreas de SPD são mais velhas que nos outros estados (e o fator tempo é importantíssimo, pois, o SPD consolida-se com > 10 anos). Nessas áreas o calcário tem descido mais de 4 cm/ano. Novamente é preciso ver as alterações que estão ocorrendo em outras propriedades (físicas e biológicas) que interagem diretamente com a química, ou seja, as galerias de raízes mortas e a mesofauna são os grandes responsáveis por fazer descer o calcário e não os ácidos orgânicos como se achava até pouquíssimo tempo atrás... Abraços. Tiago

    ResponderExcluir
  8. qual tipo de solo tem mais risco de sofrer uma super calagem?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Qualquer solo sofre com a supercalagem, pois ela significa aplicar calcário em excesso. Conforme explicado no texto do artigo.

      Excluir

Comente, manisfeste a sua experiência, a sua dúvida, utilizando a parte de comentários.