terça-feira, 27 de setembro de 2016

Solos Alcalinos - Como Baixar o pH.


A recuperação de solos alcalinos é mais difícil e leva mais tempo quando comparada à neutralização de solos ácidos. Segundo KIEHL (1979) a pluviosidade baixa acarreta o acúmulo de sais de Ca, de Mg, de K, e carbonato de sódio, de maneira a saturar o complexo coloidal, dando origem à alcalinidade dos solos. Estes solos são característicos das regiões áridas e semiáridas. Segundo o mesmo KIEHL, o solo torna-se alcalino quando a maior parte das cargas negativas dependentes de pH estão saturadas por bases. Estas desalojam o H+ que passa para a solução do solo. Portanto, as bases tomam conta da solução do solo.
Num solo alcalino, pH acima de 8, há a ocorrência de carbonato de cálcio e magnésio livres e são baixas as disponibilidades dos micronutrientes Mn, Zn, Fe, Cu e do macro P. Notadamente o elemento ferro (Fe), pois sua deficiência limita o processo da fotossíntese, o que chamamos de clorose férrica. A cloroso afeta em primeiro lugar as folhas jovens, as quais ficam amarelas mantendo as nervuras verdes para, finalmente, se tornarem totalmente amareladas. Se não houver uma reposição de ferro, todas as folhas da planta ficam amareladas e, por consequência, a planta terá seu crescimento prejudicado, podendo morrer.
Os solos neutros (pH 7,0) ou alcalinos não contém íons H e Al. Os pontos de troca de cargas encontram-se ocupados por bases trocáveis, pois os íons H e Al foram substituídos na sua grande totalidade. Os íons Al foram convertidos em Al(OH)3. Neste contexto, grande parte das cargas dependentes de pH tornou-se disponível para troca catiônica, com a consequente liberação do íon H+ que se desloca para a solução do solo, o qual reage com os íons OH- para formar água. No processo de troca, o H+ é substituído pelo Ca, Mg, K e outras bases.
Acidificar um solo alcalino não é muito fácil pelas seguintes razões:
1. Os solos alcalinos têm um grande poder tampão, ou seja, eles resistem fortemente às variações do pH. As mudanças no pH são rápidas e o solo volta a ter o valor do pH inicial;
2. Os solos alcalinos contêm frequentemente carbonatos de cálcio e de magnésio. Estes carbonatos reagirão com as adubações acidificantes e as neutralizarão, desta maneira impedirão o pH de baixar.

Então, o que fazer?
Embora a dificuldade de baixar o pH de um solo alcalino, poder-se-á lançar mão das alternativas abaixo, lembrando que isto é lento.


INCORPORAÇÃO DE MATÉRIA ORGÂNICA

É o método mais barato para reduzir o pH do solo. Terras com alto teor de matéria orgânica apresentam um pH mais baixo, bem como contêm grandes quantidades de nutrientes.
Atribuiu-se à matéria orgânica a origem da acidez do solo, pois sua decomposição produz ácidos orgânicos que dariam este caráter ácido ao solo. Os solos ácido estariam saturados de H+ e maior quantidade de Al³. A incorporação de compostagens, turfas seria uma alternativa para baixar o pH. Entretanto, lembre-se que isto não é um processo rápido e que exige tempo para fazer efeito.
Portanto, adicione matéria orgânica no solo, incorporando-a na camada arável. As folhas, galhos, resíduos vegetais quando incorporados no solo reduzem gradualmente o pH. A sua decomposição, pelos micro-organismos do solo, dá origem a produtos ácidos. Mas devemos esperar resultados a longo prazo, pois a decomposição dos resíduos vegetais demora em alterar o solo. Muitos preferem aplicar quantidades anuais de matéria orgânica para baixar o pH. Por outro lado, considere os benefícios que esta matéria orgânica concede ao solo. A formação de lavouras de adubos verdes deverá ser uma prática usual e que ajudará neste processo de baixar o pH. Plante e incorpore as plantas na camada arável do solo.


LEGUMINOSAS PODEM ACIDIFICAR O SOLO

Segundo um trabalho realizado por Grapeggia Jr, Gentil et al., da Universidade de Santa Maria/RS, as leguminosas adicionam grandes quantidades de nitrogênio no solo; porém este nitrogênio sofre a nitrificação, com consequente  lixiviação do nitrato, levando à acidificação do solo em pastagens com leguminosas. O nitrato lixiviado é o responsável pela acidificação do solo. As raízes das leguminosas liberam íons de hidrogênio (H+) ou de oxidrilas (OH-) em virtude da maior absorção de cátions ou ânions. Este desequilíbrio, na absorção de cátions e ânions, faz com que haja uma maior excreção de íons H+ pelas leguminosas, e uma acidificação na zona das raízes. A adição de grandes quantidades de massa verde pelas leguminosas ou seu uso continuado como cobertura, por muito tempo, pode provocar transformações no solo e uma delas é a acidificação.
Existem várias pesquisas sobre  ação das leguminosas na acidificação do solo. Para isto, leia:


ADIÇÃO DE ENXOFRE (S) ELEMENTAR

O enxofre elementar (So) é uma das formas mais eficaz para acidificar os solos que apresentam um pH alcalino. Aplicado no solo, sua absorção pelas plantas acontece depois da oxidação a sulfato - SO4². Este processo ocasiona uma acidificação do solo com a produção de dois mols de H+ para cada mol de So oxidado.
O enxofre é uma alternativa barata, mas mais lenta. O enxofre precisa ser metabolizado pelas bactérias do solo para ser convertido em ácido sulfúrico, e isto é demorado. Para apresentar um resultado perceptível no solo, isto poderá levar meses, pois esta metabolização vai depender da existência no solo da umidade, da quantidade de bactérias presentes, da temperatura, para permitir esta conversão em ácido. O ácido sulfúrico neutraliza o CaCO3, nos solos alcalinos, com um aumento na produção de íons H+. O processo é lento, porém bastante rápido nos solos arenosos.
O enxofre elementar (So) é insolúvel em água e sua transformação em ácido sulfúrico vai depender da sua granulometria. Quanto mais fina for as suas partículas mais rápida será a sua reação no solo. Me parece que existe a forma granulada, mas esta deve ser bem-feita, de modo que a granulação permita que ela se dissolva no solo em contato com a umidade.
O enxofre elementar deve ser incorporado no solo e depois regado. Mas cuidado: pouca ou muita água reduz o processo de oxidação. Durante o período de oxidação o solo deve ser mantido úmido, mas não encharcado. Este processo poderá levar vários meses, se o solo for muito alcalino. O enxofre possui 95% S.

A eficácia da aplicação do enxofre depende dos seguintes fatores:
1. o S deve ser incorporado no solo;
2. deve existir uma população ativa de bactérias para transforma o S em (SO4)². É esta conversão que acidifica o solo;
3. devemos planejar com antecedência a aplicação do S, porque a acidificação é lenta. Não adianta aplicar no plantio, esperando bons resultados. Geralmente, 3 a 12 meses são necessários e isto depende da temperatura do solo e da taxa de umidade;
4. aplicações anuais de S poderão ser requeridas para que o solo permaneça no pH ideal para o desenvolvimento das culturas e ótima disponibilidade dos nutrientes (pH 6 a 6,5).

O sulfato de alumínio age mais depressa, pois produz acidez logo que entra em contato com o solo. O S elementar, como vimos, é mais lento, pois a sua conversão em ácido sulfúrico pelas bactérias é mais lenta. Entretanto, nenhuma forma é capaz de reduzir o pH permanentemente, sendo necessária a reaplicação todos os anos. Além disto, o custo do sulfato de alumínio é maior que o S elementar, bem como a quantidade a aplicar será muito grande.

ADIÇÃO DE ÁCIDO SULFÚRICO EM LUGAR DO ENXÔFRE

Muitos recomendam a substituição do S elementar pelo ácido sulfúrico. Embora a acidificação seja mais rápida, este método apresenta vários inconvenientes, ou seja:
1. sua manipulação é muito perigosa;
2. há necessidade de equipamento especial;
3. seus efeitos são temporários;
4. requer grandes quantidades na aplicação.

APLICAÇÃO DE UREIA REVESTIDA COM ENXOFRE

A ureia revestida com enxofre apresenta bons resultados na diminuição do pH em solos alcalinos. Uma a duas semanas após a aplicação, os efeitos já são sentidos, pois sua ação é rápida. É uma opção para o emprego na lavoura, pois existem fertilizantes que possuem, na sua composição, a ureia revestida com S.

FERTILIZANTES NITROGENADOS QUE ACIDIFICAM O SOLO

O sulfato de amônio pode acidificar o solo, mas o processo é lento. Sua eficiência revela-se inferior àquela do S elementar. Outros fertilizantes como o DAP e o nitrato de amônio podem acidificar o solo.
Fertilizantes como o sulfato de potássio, sulfato de magnésio, sulfato de cálcio, sulfato de zinco, sulfato de manganês não acidificam o solo, não agem sobre o pH.
SILVA, Haren Marcelle de Jesus e outros estudando a utilização do enxofre elementar como alternativa para a acidificação de solos com pH alcalino, chegaram à conclusão que aos 28 dias da incubação do S elementar ocorreu redução linear do pH em solo de textura média argilosa. Concluíram, também, que a aplicação de 2.000 kg/ha reduziu o pH deste solo em 0,55 unidades de pH em 63 dias após a incubação do S elementar (So).

REFERÊNCIA

SILVA,K.M.de J.; SILVA da,D.F.; PEGORARO, R.F.; SANTOS,L.P.da S.; SILVA,F.de J.; SILVEIRA,T.C.; RABELO,J.M. Utilização de Enxofre Elementar como alternativa para Acidificação de Solos com pH Alcalino. FORUM-FEPEG. Disponível em: <http://www.fepeg2014.unimontes.br/sites/default/files/resumos/arquivo_pdf_anais/utilizacao_de_enxofre_elementar_como_alternativa_para_acidificacao_de_solos_com_ph_alcalino._karen.pdf> Acesso em: 21 Set. 2016.

6 comentários:

  1. Bom dia! Tentei entrar em contato com sua pessoa, mas não tive sucesso, então venho por este comentário pedir sua atenção. Estou concluindo o curso de agronomia, oeste do Paraná. Meu trabalho é sobre diferentes dosagens de gesso na cultura do trigo. Vou avaliar produtividade e PH. Gostaria da dua opinião, por seu imenso conhecimento se poderia sugerir mais alguns parâmetros. Lembrando que este trabalho é com outra pessoa (vai avaliar foliar, absorção) e em cojunto com IAPAR. Obrigado desde já

    Att Cleiton mateus

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    1. O que vc pensa está bom. O comportamento do solo na camada 20-40 após receber gesso agrícola em relação à análise nesta camada antes de aplicar o gesso.
      Analisar o comportamento da CTC do solo após a aplicação do gesso. Teores de Al na camada 20-40 após a aplicação do gesso.
      Bem como os teores de Ca e S nas duas camadas.
      No mais, desejo-lhe muito sucesso no seu trabalho. Abraços.

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  2. Obrigado! Nesses últimos cinco anos fiz uso inúmeras vezes do seu blog, parabéns pelo trabalho. Grande abraço

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  3. Olá! Parabéns pelo blog! Você faz um belíssimo trabalho aqui! Suas informações estão me ajudando muito na graduação de agronomia...

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  4. Gostaria de saber se tem como a concentração de potássio na folha ser maior do que a concentração de potássio no solo? Se tiver, porque que isso acontece?

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    1. A concentração de potássio nas folhas é expressa em mg/dm³ e no solo é expressa em cmolc ou mmolc/dm³. Por exemplo 25 mg/dm³ nas folhas não é a mesma coisa que 0,15 cmolc/dm³. Pela quantidade (25 contra 0,15) nos leva a pensar que tem mais K nas folhas do que no solo. Mas 0,15 cmolc/dm³ convertendo-se dá 59 mg/dm³.

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